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Sem mais delongas (e sem falar de coisas chatas, ao menos nesse primeiro momento), vamos aos jogos, um por um, dissecados pelos olhos de quem ao menos se informou para falar - e também por quem tem uma ótica bem diferente da maioria dos torcedores, felizmente ou não:
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POLÔNIA X GRÉCIA
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~ Ainda no primeiro tempo, uma história épica começou a ser construída. Papastathopoulos tomou dois cartões amarelos e o consequente vermelho após duas faltas inexistentes.
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~ Péssima atuação da arbitragem, desvantagem no placar, um jogador a menos... tudo perdido ? Não para um povo que praticamente é o berço da civilização ocidental. Logo no começo do segundo tempo, bate-rebate na área e Salpingidis, que tinha entrado no intervalo, escora.
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~ O time que tinha dominado o primeiro tempo se via em apuros, mas contava com um goleiro jovem e talentoso. Não mais. Szczesny derrubou Salpingidis e foi expulso. Entrou Tyton, o terceiro goleiro polaco, que defendeu a cobrança de pênalti de Karagounis. A história épica da Grécia tornou-se também memorável para o goleiro da Polônia. No final das contas, para quem foi mais incrível a partida ? Certamente para quem não esperava muito do jogo e viu um belo espetáculo, como esse que vos escreve.
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RÚSSIA X REPÚBLICA TCHECA
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~ Dzagoev mostrou porque é um dos jogadores mais desejados da Europa atualmente. Marcou dois gols e jogou muito bem, deixando o sistema ofensivo tcheco comendo poeira.
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~ Além de boa parte do time da República Tcheca, o destaque negativo vai para Kerzhakov. O atacante do Zenit perdeu no mínimo três boas oportunidades de fazer uma daquelas goleadas históricas na Euro. Ele, que é reserva do selecionado nacional, herdou a vaga de Pavlyuchenko, após atuações ruins do segundo. Eis que ele entra e anota o último gol da goleada russa, selando a péssima partida de Kerzhakov.
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~ Logo no começo da partida, sinalizadores foram jogados pela torcida russa no gramado. Um evento simples pode ter várias interpretações, como pode-se ver: o sinalizador foi jogado por uma das torcidas mais intolerantes (e, por vezes, mais racistas e imbecis) da Europa, que só queria chamar atenção; ué, mas os europeus não muito bem educados e nunca dão vexame ?; é digno de nota que a transmissão do certame tenha mostrado o evento, e não omitido-o - ainda que por poucos segundos; também improtante ressaltar que o árbitro não parou a partida e nem fez estardalhaço, como muitos juízes que adoram holofotes fariam; é bom ver que o Fair Play exagerado não teve espaço na terra onde o Fair Play tradicional costuma levar vantagem - Fair Play pra quê, aliás ? O respeito, que é o mais importante, não precisa de bandeira de bandeiras tão pueris.
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HOLANDA X DINAMARCA
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~ No lance do tento, o atacante Michael Krohn-Dehli levou boa parte da zaga laranja e chutou entre as pernas do ótimo goleiro Stekelenburg. Nem ele nem a Dinamarca fizeram nada muito além no resto do jogo, mas... precisava ? Os escandinavos só precisaram de um lance para decidir a parada, e fizerma isso com maestria. Destaque também para uma grande atuação do já veterano dinamarquês Poulsen.
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~ Toca, toca, toca. Chuta, chuta, chuta. Defende o goleiro, pra fora, na trave, passa perto. Esse foi o enredo do filme holandês na partida, que muito insistiu e exibiu um futebol vistoso, mas nem um pouco eficiente. Futebol a Laranja sabe que tem, mas precisa converter isso no placar.
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ALEMANHA X PORTUGAL
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~ Em campo havia uma camisa pesadíssima (a mais vitoriosa da EuroCopa) e uma de destacada tradição com ares moderninhos e embalada por um grande jogador - pipoqueiro, mas não menos grande jogador. Como time a Alemanha é mil vezes mais forte e bem entrosada e era favorita. Mas... como duvidar dum Cristiano Ronaldo, dum Nani, dum Raúl Meirelles ? E foi assim, muito mais nas individualidades portuguesas que no coletivismo tedesco, que o jogo se desenrolou.
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~ Khedira cruzou e o sempre artilheiro Mario Gómez testou pras redes portuguesas: 1x0, fim de papo. É simplista demais ver o jogo por essa ótica. A verdade é que Portugal jogou melhor, e que faltou culhão, tradição e camisa para a bola entrar - sim, eu sou romântico, ignorante e tradicional a ponto de pensar isso. Quando Portugal teve chances, desperdiçou. CR7, Nani e Silvestre Varela perderam gols incríveis, e na única boa chance que teve a Alemanha venceu. Se a tricampeão europeia e mundial fosse Portugal, talvez o jogo fosse uma sacolada homérica. Como não é, venceu o time com mais tradição, mais frio e que melhor soube decidir.
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~ A atuação do zagueiro alemão Hummels foi de encher os olhos de qualquer um. Taticamente, tecnicamente e fisicamente brilhante, encantou até mesmo aqueles que só veem o futebol pelo lado ofensivo.
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ESPANHA X ITÁLIA
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~ Faltou bom futebol. Em planos de jogo a Itália deu um banho, conseguindo afastar bem a seleção espanhola de sua área - faltou chute ao gol por parte da Espanha, mas chutar de longe é o mesmo que quebrar toda uma ideologia. Quem quebraria um espírito vencedor, não ?
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~ Se a Espanha tem Xavi e Iniesta, que não erram um passe desde que o mundo é mundo, a Itália tem Pirlo. E ele descolou um lançamento fabuloso para Di Natale, o vovô artilheiro, guardar um chute no cantinho de Casillas. Outro espanhol bom de bola e com toques refinados, David Silva chamou a responsabilidade para si e encontrou Fábregas, que empatou a partida.
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~ No meio de tantos ibéricos talentosos, um espanholzinho destoa. Com início de carreira promissor no primo pobre de Madrid, Fernando Torres nunca virou o jogador que projetava. Com mais uma de diversas chances dadas, ele fez questão de desperdiçar diversos lances. Até quando El Niño vai atrapalhar seu país ?
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~ Após o jogo, o elenco espanhol fez algo que me surpreendeu negativamente: reclamou do gramado do estádio de Gdansk, na Polônia. Iniesta, Xavi Hernandez, Cesc Fábregas e o técnico Vicente del Bosque cornetaram o gramado, que não havia sido molhado. O italiano Pirlo, maestro até fora de campo, deu um ótimo cala-boca: “O gramado é o mesmo para os dois times”. Mesmo com o campo seco favorecendo um jogo mais lento, cadenciado, defensivo e feio (coisa que a Azzurra sabe fazer muito bem), foram palavras muito bem encaixadas, em um timing perfeito.
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IRLANDA X CROÁCIA
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~ Mandzukic fez dois, Jelavic fez um. Não é necessário dizer muito mais sobre a partida, que teve uma vitória do ataque sobre a defesa - vale ressaltar que a seleção verde é treinada pelo tradicional e retranqueiro italiano Giovanni Trapattoni. Nem mesmo Keane e Given deram jeito no Irish Team. Na realidade, quem tentou dar um jeito foi o zagueiro St. Ledger, ao fazer o gol de empate - e de honra, no somatório da partida. E olha que ainda ficou barato, já que Perisic, Eduardo da Silva e sobretudo Modric decepcionaram.
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FRANÇA X INGLATERRA
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~ Por outro lado, estou confiante quanto a França. Uma das seleções com quem eu mais antipatizo graças ao seu histórico favorável contra o Brasil, os Bleus parecem ter encaixado um time decente - na minha opinião, é a melhor equipe após as três favoritíssimas da Euro: Espanha, Alemanha e Holanda, pela ordem. Soma-se a isso um técnico jovem e competente lutando pela sua afirmação, como Laurent Blanc e um punhado de estrelas ligeiramente jovens, como Ribery e Nasri e tenha um embrião de um time que ainda não chegou no seu ápice, mas já assusta.
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~ A Inglaterra, para minha surpresa, assumiu acertadamente que tá longe de er um grande time e se defendeu. Fez seu jogo feio e pouco apaixonante, mas é isso que a atual entressafra de atletas pode proporcionar. Roy Hodgson, técnico pouco vencedor e famoso por levar equipes bem pouco vencedoras e com pouca técnica bem longe, armou seu ferrolho e soube muito bem jogar como time pequeno (que a Inglaterra não é) e pouco tarimbado (que a Inglaterra é). Numa cobrança de falta do sempre competente Gerrard, o pouco falado Lescott cabeceou. Seria uma vitória do futebol durão ?
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~ Antes de continuar a história do jogo, um adendo: por que sempre jogadores de defesa pouco falados acabam marcando gols após cruzamentos na área e tornam-se herois ? Os que me vem a mente agora são os de Rondinelli e Ronaldo Angelim (ambos do Flamengo), mas tem muitos outros exemplos - deixo o leitor lembrar de um, dois, vinte, duzentos ou vários outros.
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~ Na base do "desespero-vai-como-pode-e-dá" conhecido do "melhor-time-em-campo-que-não-consegue-muita-coisa", Nasri chutou de longe, no cantinho do ótimo goleiro Joe Hart. A França ficou devendo sim, mas mostrou que, quando um de seus jogadores diferenciados (pra ficar numa palavra que eu odeio, tanto quanto a seleção francesa) resolve decidir, é difícil segurar.
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~ Gerrard foi novamente muito bem após a partida: "Estamos satisfeitos com um ponto". Traduziu muito bem o espírito duma equipe que não pode sonhar muito, mas fez bem o seu papel dentro de campo - e que, caso se coloque em seu devido lugar, pode ir (muito) longe.
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UCRÂNIA X SUÉCIA
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~ A Suécia é melhor, e mostrou isso primeiro. Ibracadabra fez o gol, mas o time de Isaksson, Mellberg, Larsson, Toivonen, Svensson e Elmander merece toda a atenção. Coletivamente, é boa equipe.
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~ Embora a Ucrânia também tenha seus Tymoschuk e Voronin, quem decide e quem marcou a história da seleção ucraniana é Shevchenko. Eis que ele marca os dois gols da virada. Ah, futebol ! E ele ainda sai de campo após os tentos, ovacianado por uma legião de fãs. Não só os ucranianos presentes no estádio, pelos suecos também. Não só por ucranianos e suecos no estádio, mas em seus países. Não só por ucranianos e suecos, todo o mundo aplaudia um dos maiores atacantes da história do futebol.