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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A direita à direita

(Créditos: AFP/Reprodução)
PS: esse texto busca fazer uma análise, e não uma crítica. Não é o que o blogueiro está acostumado a fazer - é, na verdade, quase um desafio. Nem de longe o blogueiro compactua com esse tipo de pensamento (é, aliás, muito combatido e criticado por ele), mas analisar também faz parte do processo racional - até para poder criticar com mais conhecimento da causa e sem falar asneiras. 

Como boa parte de tudo que diz respeito à civilização como conhecemos hoje, o conceito do que é "esquerda" e "direita" na política surgiu na Revolução Francesa. Na Assembleia Nacional Constituinte, que buscava limitar os poderes do rei e tornar a sociedade mais justa (tanto que originou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão), existiam três grupos, sendo dois mais famosos:

- Girondinos: representantes da alta burguesia, que se sentavam à direita do rei
- Jacobinos: representantes da média e baixa burguesia, que se sentavam à esquerda do rei

(Créditos: Domínio Público)
Consolidou-se, então, o que era direita e esquerda no espectro político. O blogueiro confessa que odeia essa classificação por achar que existem várias nuances e pensamentos que não podem ser rotulados em apenas dois grupos, mas por vezes é necessário usá-los para ser entendido mais facilmente. 

Nos últimos tempos, a chamada direita cresceu de maneira exponencial em todo o mundo. Talvez o primeiro movimento a se fazer notado nas urnas (não se sabe se é causa ou consequência do aumento desse pensamento) foi o Tea Party, que surgiu em contraposição às medidas assistencialistas do presidente Barack Obama. 

Convém falar, porém, que o pensamento rapidamente se espalhou mundo afora - não só em eleições. O crescimento de grupos neonazistas (sobretudo na Europa) fala melhor que qualquer outra atitude. Uma das facetas mais controversas de quem partilha desse pensamento é a aversão aos migrantes - que, para quem não compactua com esse pensamento, chega a patamares xenófobos. Os tantos árabes que morrem e/ou ficam em condições sub-humanas (como esquecer da foto do garoto morto na Turquia?) mostram as consequências práticas que essa aversão pode ter quando levado a níveis extremos. 

(Créditos: Getty Images/Reprodução)
Alguns grupos de mídia também não escondem seu ar bem conservador. Mundialmente, a Fox News talvez seja o caso mais conhecido. No Brasil existem várias polêmicas que versam sobre um suposto favorecimento a quem tem viés mais de direita - como a edição do Jornal Nacional do último debate presidencial de 1989 ou a cobertura da Operação Lava-Jato pela grande mídia brasileira. Por aqui, a revista Veja e, mais recentemente, a rádio Jovem Pan são tidas como porta-vozes do pensamento conservador.

Embora não possa ser definido apenas por conta de eleições, é nas urnas que a direita mais cresceu - e mais chamou a atenção. Na Europa, países de todos os cantos (do Leste, do Centro, do Oeste, do Reuno Unido e até da Escandinávia, região tida como tradicionalmente social-democrata) apresentam grande crescimento dos partidos de extrema direita. Isso inclui países muito importantes para a geopolítica mundial, como a França e a Inglaterra. 

O Reino Unido, aliás, foi o palco de uma das grandes demonstrações de força do novo pensamento radical de direita. A consumação do BrExit, que tira o país da União Europeia, é a uma vitória da extrema direita - que, entre suas principais características, contém o nacionalismo e a vontade de se livrar cada vez mais da garra do Estado, seja ele qual for. Tais atributos atraíram os ultraconservadores britânicos, que venceram o pleito.

O grande salto mundial da extrema direita, porém, foi a recente eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Após oito anos de governo democrata, os americanos escolheram pelo polêmico candidato republicano - que, inclusive, venceu em redutos tradicionalmente rivais, como os estados de Wisconsin, Ohio e Michigan. 

(Créditos: Mike Segar/Reuters)
No Brasil, a parelha eleição presidencial de 2014 já foi uma prévia de que o pensamento de direita/extrema direita tinha ressurgido (para muitos, resultado das Jornadas de Junho), mas foi em 2016 que os candidatos dessa corrente ideológica se destacaram. O forte pensamento antipetista após o impeachment catapultou candidatos do PSDB (principal força da direita brasileira) e de tendência conservadora nas eleições municipais do país.

Donald Trump, João Dória Jr. (eleito prefeito de São Paulo em primeiro turno, primeiro candidato a cosneguir isso na história da Nova República), o BrExit e a extrema direita eurocêntrica têm alguns pontos em comum. 

- A rejeição do rótulo de político, apresentando-se muito mais como um gestor e/ou empresário de sucesso
- As críticas ao sistema político e ao establishment
- Ideias neoliberais, como privatizações e fim de programas assistencialistas
- Valorização do povo local, desprezando quem é de fora dos limites do espaço a ser governado
- Crescimento ao aproveitar uma rejeição de seus adversários políticos, por fatores característicos de cada região

(Créditos: Democratize Mídia/Reprodução)
É óbvio que os fatores particulares de cada uma das situações apresentadas é de fundamental importância para cada eleição. Mas é curioso notar que, em pleitos tão distintos, existem pelo menos cinco pontos de convergência. 

Também é importante dizer que, como quase tudo na história, a política é um pêndulo. O pensamento conservador voltou à baila após ano de ostracismo. Daqui um tempo deve voltar à penumbra, e assim sucessivamente. Isso é democracia. 

O que choca muitos, porém, é o quanto os novos pensamentos conservadores vão de encontro a ideias que estavam muito enraizadas e começavam a se tornar até mesmo verdades absolutas: globalização, livre fronteira, livre comércio, rejeição a qualquer tipo de fobia social. Mais que qualquer ideia econômica, talvez sejam essas questões que entram até mesmo no estilo de vida de cada pessoa que irritem e causem tantos arrepios quando se pensa no futuro da política.

(Créditos: Twitter/Divulgação)
Os expoentes da nova extrema direita de hoje em dia, se estivessem na Revolução Francesa, talvez nem se sentassem na Assembleia Nacional Constituinte por terem ideais que, de tão conservadores, mais se assemelhem à Monarquia que à República ou à burguesia. Talvez eles se sentassem ainda à mais direita dos girondinos. Cabe à sociedade de hoje, que se julga tão aberta, saber aceitar e dialogar mesmo com quem, por vezes, não parece tão disposto a isso.

A política do século XXI ganhou um grande desafio. Vamos ver qual vai ser a reação a ele.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Hilary já venceu a eleição nos EUA, diz a NFL (e outras curiosidades de Clinton, Trump e os esportes americanos)

(Créditos: ABC/Reprodução)
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É engraçado pensar que, ao contrário de tantos outros políticos americanos (e também da maioria dos Estados Unidos), Hillary Clinton e Donald Trump não ligam pra NFL. No caso da candidata democrata à presidência, o esporte que a prende é o baseball, organizado pela MLB: ela já foi várias vezes vista em jogos e com artigos do Chicago Cubs, embora também não negue simpatia pelo New York Yankees  -  e ela, certamente, está muito feliz com a épica vitória do Cubs na World Series, que pôs a fim a incríveis cento e oito anos de jejum.
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No caso do candidato republicano a situação não é de indiferença, é quase de ódio. Donald Trump, em 2014, chegou a cogitar comprar o Buffalo Bills  - negócio que não ocorreu. Porém, ao contrário de Clinton, o ~~amor~~ do candidato se dá quase que unicamente por conta do mercado dos negócios  - verdadeira praia de Trump.
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O triângulo entre Trump, futebol americano e negócios não para por aí. Ao comprar o New Jersey Generals, ele impulsionou uma liga que concorria com a NFL, chamada United States Football League - USFL. A liga deu errado, adivinhem, muito por conta da megalomania dele.
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Mais engraçado ainda é ver que a NFL pode explicar muito bem a eleição americana. Mais precisamente, o time de Washington D.C. (capital do país) ajuda a entender essa relação: se o Redskins (time de Washington na NFL) vencer o ultimo jogo que faz em casa antes da eleição, o partido que está no poder vence. Caso perca, quem leva a presidência é o partido da oposição. Essa teoria é tão bem aceita nos Estados Unidos que recebeu até nome: é a Redskins Rule.
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(Créditos: USA Today/Reprodução)
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Desde que os Redskins estão em Washington (o time foi fundado em 1932 como Boston Braves (no estado de Massachusetts) e se mudou para a atual sede em 1937), ocorreram dezenove eleições presidenciais. Em dezoito (ou seja, em 94,7% dos casos), a regra se confirmou.
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A centelha de esperança para Trump é que a única vez em que a regra falhou foi justamente na última eleição presidencial: o Redskins perdeu para o Carolina Panthers e o democrata Barack Obama venceu a eleição sobre Mitt Rommey.
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Também vale explicar uma “brecha” na regra que acontece por conta do sistema eleitoral americano, que não se dá diretamente pela votação popular  -  mas sim pelo Colégio Eleitoral, que faz com que os delegados de cada estado votem integralmente no candidato vencedor na unidade federativa, e não proporcionalmente de acordo com os números estaduais. Assim, quando o vencedor em números totais de votos não vence a eleição, a Redskins Rule fica invertida para as próximas eleições presidenciais.
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Isso já aconteceu uma vez: nas polêmicas eleições de 2000, quando Al Gore teve mais votos totais que George W. Bush e o republicano foi eleito presidente por conta do episódio que ocorreu na Flórida, o Redskins havia perdido dias atrás para o Tennessee Titans. Já em 2004, mesmo com a derrota do time de Washington para o Green Bay Packers (que deveria favorecer o democrata John Kerry), Bush se reelegeu.
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Hilary Clinton pode preferir a MLB, mas é à NFL que ela deve agradecer.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Há muito mais que esporte no fim da fila do Chicago Cubs

(Créditos: Charles Le Claire/USA Today Sports)
Dentre as cinco major leagues dos esportes americanos, a MLB talvez seja a menos comentada no Brasil - a liga de baseball certamente é menos falada que a de futebol americano (NFL), futebol (MLS) e basquete (NBA), estando talvez no mesmo nível da competição de hóquei no gelo (NHL). A temporada que se encerrou ontem, porém, atraiu a atenção de várias pessoas não só no Brasil como também em todo o planeta.
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Pessoas que, muitas vezes, nem gostam tanto (ou não gostam) do esporte. Valia a pena ver a história, que estava sendo escrita (ou quebrada) diante dos olhos de quem acompanhasse os sete jogos da World Series (final da MLB). Não era para menos: os dois finalistas estavam há eras na seca. o Cleveland Indians não era campeão desde 1948; enquanto o Chicago Cubs não levantava o principal troféu da MLB desde, pasmem, 1908. 
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(Créditos: Chicago Tribune/Reprodução)
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O blogueiro foi um dos tantos que não gosta de baseball e acompanhou a série. A sensação de ver um tabu desses cair em uma final tão improvável era sedutora, mesmo não entendendo absolutamente nada do esporte. Gustavo Setti, jornalista e fã de esportes americanos em geral, ficou com a mesma impressão: "Ninguém acreditava que Cubs ou Indians finalmente pudessem acabar com a seca de títulos.Acredito que o impacto da vitória dos Cubs foi bem maior do que seria se outro time tivesse vencido a World Series. Por ter sido os Cubs e por toda essa história de maldição, fiquei com a impressão que as pessoas deram maior valor para a conquista. Até mesmo aqui no Brasil eu senti mais pessoas interessadas do que costuma acontecer em outras World Series. Mesmo quem não gosta do esporte ou não acompanha ficou curioso para saber o que estava acontecendo.", resume.
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Não bastava, porém, a final ser disputada entre duas equipe que somavam mais de cento e setenta anos sem títulos. A série inteira foi espetacular. Na melhor-de-sete, o Cleveland Indians venceu três dos quatro primeiros jogos (sendo dois em plena Chicago) e permitiu três triunfos consecutivos dos Cubs na sequência. 
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O último jogo, aliás, não precisa de muito para virar roteiro de filme. Chicago ganhava por três corridas até a penúltima entrada, quando Aroldis Chapman (melhor arremessador do time do Cubs, de acordo com Gustavo) cedeu três corridas para Cleveland. Antes da prorrogação, um temporal caiu e paralisou a finalíssima por cerca de vinte minutos, que viu Chicago anotar duas corridas e ceder apenas uma ao Indians na entrada extra.
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(Créditos: USA Today/Reprodução)
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Esportivamente, Setti elogia dois jogadores em especial: "O Aroldis Chapman tinha números espetaculares durante a temporada e era o grande astro do time no montinho - e isso tornou bastante curioso o que aconteceu com ele na final. Seria um desastre completo o principal pitcher do time entregar a World Series desse jeito. Já em toda a World Series, acredito que o Kris Bryant foi o grande nome dos Cubs. Ele foi consistente durante toda a série e, no Jogo 7, foi decisivo com duas corridas anotadas. Pra mim, ele é quem devia ter vencido o prêmio de MVP da World Series" (o vencedor do prêmio de Most Valuable Player das finais foi Ben Zobrist).
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O tabu, porém, acaba invadindo até mesmo a análise esportiva de quem entende do assunto: "Pelo histórico do Cubs, o jejum e todas essas maldições, todo mundo ficava com um pé atrás ao falar dos Cubs como favoritos apesar da campanha deles na temporada regular (a melhor do ano, com cento e três vitórias em cento e sessenta e um jogos)".
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É o imaginário popular, porém, que mais chama a atenção no fim da fila dos Cubs. Por conta da seca de títulos, o time ganhou até mesmo o apelido de “Lovable Losers” ("Adoráveis Perdedores"). No filme "De Volta Para o Futuro 2", de 1989, o Cubs aparece como campeão da World Series de 2015 - para dar um ar quase nonsense à trama. 
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(Créditos: De Volta Para o Futuro 2 - Reprodução)
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A história mais lembrada dos cento e oito anos de seca, porém, é a Maldição do Bode. Em 1945 (última World Series disputada pelo Cubs antes de 2016), um torcedor levou um bode para torcer pelo time e foi impedido de entrar. Ele, então, rogou a praga: o time jamais voltaria a ganhar um título. Outros episódios famosos foram a aparição do gato preto em um jogo decisivo (e perdido) pelo Cubs em 1969; e o caso Steve Bartman, em que um torcedor tirou a bola da mão de um atleta do Chicago Cubs na final da Liga Nacional (série anterior à World Series) de 2003. 
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Se o Cubs se viu livre de sua maldição, existem outros tantos times que passam a ser mais olhados como azarados. "Acredito que essa Maldição do Bode sempre vai ser lembrada, mas agora com um final feliz. Os esportes americanos são cheios dessas maldições, então agora as pessoas vão começar a dar mais atenção ao jejum dos outros times, como é o caso do próprio Indians, que não vence uma World Series há sessenta e nove anos (maior fila dos esportes americanos atualmente - e ironicamente)", comenta Gustavo.
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A seca que parecia eterna acabou da maneira mais espetacular possível. Para muitos, a ficha do Cubs campeão da World Series ainda não caiu. Resta saber, agora, quais serão os finais de outros jejuns e como os "Adoráveis Perdedores" se portarão no futuro. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Precisamos falar sobre refugiados

A foto que correu o mundo fala por si só - a criança morta na costa turca do Mediterrâneo; e eu recomendo que você só veja a foto se tiver o coração forte, já que a imagem não tem imagens fortes, apenas símbolos tristes e chocantes demais.
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Créditos: Pragmatismo Político/Reprodução
Também não quero (ao menos com esse texto) entrar no mérito da discussão jornalística sobre o tema, tampouco na veiculação ou não da foto que mostra o garoto - discussão muitíssimo pertinente, aliás; e é bom ver que, ao menos nesse caso, a imprensa mais acertou do que errou, até onde sei. A questão aqui é outra, mas que também passa pelo jornalismo (aliás, é condição de existência da mesma): as causas humanitárias.
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Existem muitos fatos associados a essas causas que você não deve conhecer. Aliás, existem muitos fatos por aí que você não conhece. E são justamente esses fatos que colaboram para o crescente aumento de refugiados mundo afora. Ok, o Estado Islâmico é um deles e esse você deve conhecer, mas você não deve saber (ou talvez nem se lembre) que a Síria segue em guerra civil, que muitos países do Oriente Médio restringem a entrada de refugiados e que países como Líbia e Somália têm um governo oficial apenas na prática. Isso sem falar na fome, no Ebola, em outras tantas doenças, na falta d'água ou de saneamento básico. Coisas básicas, mas que milhões de pessoas no mundo não dispõem - e são pessoas miseráveis desses locais que compõem o imenso contingente de refugiados mundo afora.
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Esses são problemas políticos, não tenha dúvida. Mas a discussão sobre abrigar quem é vítima dessas mazelas sociais é algo muito maior que a política. Não existe direita ou esquerda, liberal ou conservador. Existe cidadania, respeito e amor ao próximo. Países escandinavos (meu modelo de sociedade ideal) oferecem abrigo a refugiados - como a Islândia e a Suécia. 
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Créditos: Angop/Reprodução
A Alemanha, maior força econômica da União Europeia, também se destaca nesse aspecto. Mais do que números, a sociedade aceita os refugiados. Na última rodada da Bundesliga (o Campeonato Alemão), as torcidas de Borussia Dortmund, Werder Bremen, Bayern e Hamburgo levaram faixas para os estádios dando boas-vindas aos novos habitantes - os bávaros foram além, oferecendo abrigo, comida e aulas de alemão. A causa dos desamparados é uma das principais do St. Pauli (da segunda divisão alemã, que conta com adeptos muito ativos em prol de minorias) há tempos, também.
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Há, porém, péssimos exemplos. O leste europeu tem na Rússia um dos países mais racistas da Terra, enquanto a Hungria tem políticas confusas e a República Tcheca chega ao cúmulo de construir campos de refugiados. Fascismo puro.
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A conversa fascista de que eles vão roubar empregos e etc é tão absurda que não cabe nem discussão, apenas resposta: refugiados não recusam empregos, se esforçam para construir um lugar melhor para o próximo, cuidam do pouco que tem e são extremamente gratos aos que os ajudam. Uma prova viva disso é o documentário SP Créole, que foi o Trabalho de Conclusão de Curso de duas amigas da minha sala (Débora Mayumi e Pamela Passarella) sobre haitianos que vivem no Brasil - movimento migratório que tomou força após o terremoto que devastou o país em 2010; e sim, o problema é mundial, não apenas com destino à Europa.
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Créditos: Umit Bektas/Reuters
Você, descendente de italianos, portugueses, japoneses, espanhóis, árabes, de várias etnias negras ou qualquer outra nacionalidade talvez não saiba que o seu primeiro antepassado a pisar no Brasil queria viver dignamente e/ou melhor - assim como haitianos, bolivianos, chineses e coreanos, árabes na Europa ou afins. Você discriminaria seus parentes?
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Não existe nacionalidade maior que a humanidade, assim como não pode existir pensamento que não pregue o respeito ao próximo. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

E você, vai aprender o quê com as crises?

Você deve conhecer a crise de 2008 muito mais pela fama que ela criou mundo afora do que pelo impacto dela na economia brasileira. Mas saiba que ela foi devastadora. Foram momentos difíceis ao redor da Terra, mas o mundo já está praticamente recuperado - tem um ou outro país ou região que fogem à regra, como quase sempre acontece. O mais importante é que o mundo aprendeu muito com a recessão recente, assim como aprendeu demais após a Quinta-Feira Negra. 
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Em 2001, o Brasil viveu o famoso apagão por conta da baixa quantidade de água nas hidrelétricas nacionais. Após um período de muita economia, o país voltou à normalidade no aspecto de geração de energia. O que aprendemos com aquele triste período? Se pensarmos que de 2001 até 2013 o consumo de energia cresceu 51,6% (de acordo com o Ministério das Minas e Energia) e que de 2013 para 2014 o aumento foi de 3,6%, dá para deduzir que pouco aprendemos - se é que aprendemos algo. O desperdício segue imenso.
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Sei que a partir de 2002 (ou seja, um ano após o apagão) o Brasil começou a crescer demais economicamente, mas longe de acompanhar o ritmo de crescimento do consumo de energia. A conta simplesmente não fecha. 
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Eis que, catorze anos depois, enfrentamos duas crises ao mesmo tempo - e, novamente, parece que insistimos eu não tirar nenhuma lição delas. Agora não há mais crise de energia (de maneira sistêmica, ao menos e por enquanto), mas sim de combustíveis e ética. (Não que a crise ética seja de hoje, mas ela está em voga novamente - se é que um dia ela saiu da pauta).
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Como o seu bolso já deve ter acusado, a gasolina ficou mais cara no país inteiro nos últimos dias. Se você teve algum contato básico com redes sociais na última semana deve ter visto muita gente contando casos diversos e reclamando do preço da gasolina. 
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O mais engraçado é que quem faz essas reclamações não deixa de encher o tanque. Paga o que tiver que pagar, mas sem o carro não pode viver. Ônibus? Trem? Metrô? Bicicleta? Trólebus? Ora, faça-me o favor! O ilustríssimo classe média não abandona seu automóvel, custe o que custar. Entre a economia e o conforto (e o status), prefere os dois últimos. 
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É simples: você pode colaborar bastante para abaixar a gasolina. Basta largar o carro e passar a andar de transporte público. Com menos procura, o preço vai cair. É a Lei da Oferta e da Procura ao nosso favor. Todo mundo agradece. 
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Não tenha dúvida que os ônibus, os trens, os metrôs e afins estão lotados, infelizmente. Mas qual foi a última vez que você não pegou trânsito ao ir trabalhar? Ao pesar as duas situações, os motoristas preferem olhar para o próprio umbigo do que para o restante da sociedade - sem ver que o umbigo dele também pertente à sociedade. Isso para não entrar nos méritos ambientais, já que um carro polui muito mais que qualquer condução pública. 
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Paralelamente a isso, vemos um tristíssimo episódio que devasta a Petrobras, outrora orgulho brasileiro. Tal qual tantos outros escândalos, o problema é o mesmo: corrupção. 
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Não vou me lembrar onde vi a citação, mas concordo muito com ela: corrupção tem hierarquia. Nessa altura da vida, não podemos mais ser tão pueris para acreditar que guardar lugar na fila é algo que possa ser comparado a desviar bilhões de reais públicos para contas particulares. Isso só acontece na mente de mães carolas em explicações bem boçais, rasas e hipócritas para seus filhos - que já recebem uma noção ética errada desde o começo de sua educação, como podem ver. 
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Guardar lugar na fila é errado, e é algo que muitos fazem. Mas e se alguém oferecesse um carro, uma casa ou uma boa quantia em dinheiro para ganhar seu voto, você se venderia? Se nós não temos acesso aos bilhões envolvidos no petrolão, podemos trazer a situação para valores e situações bem mais próximas de nós - como eu fiz acima. 
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É fácil se revoltar com o que vemos todos os dias nos (radio/tele)jornais. É revoltante mesmo. Mas, se você faz o mesmo que eles (dadas as devidas proporções), você mesmo é um deles e esta atrapalhando o bom andamento do país. 
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Aliás, o pior pensamento que pode existir em situação de conflitos éticos tão fortes como o que vivemos agora é o de que "se eles podem, eu também posso". Não, ninguém pode. E, se a impunidade te deixa livre, você ganha o asco de boa parte das pessoas, que passam a te olhar de canto de olho e a perder a confiança em você. 
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Passe a ver a notícia com outros olhos. Como tudo na vida, elas também trazem aprendizados. E, nesse caso, aprender é mudar o próprio comportamento.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Aniversário DE São Paulo, não DO São Paulo

Das datas que são feriados municipais, creio que poucas sejam tão conhecidas quanto o paulistano 25 de janeiro. Por ser a maior cidade do país, a mídia sempre acaba falando de algumas tradições locais do aniversário de São Paulo (como o bolo do Bixiga ou a final da Copa São Paulo, essa última com transmissão em rede nacional) e faz aquelas homenagens piegas com músicas em alusão à Locomotiva do Brasil. 
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Entretanto, uma comemoração me incomoda um pouco: os são-paulinos que tomam para si o aniversário da cidade de São Paulo e comemoram também o aniversário do São Paulo Futebol Clube. Parece não tem nada a ver, mas há uma ligação histórica entre as duas causas. 
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A data da fusão dos futebolistas do Paulistano (aristocrático clube que até hoje tem sua sede nos Jardins e mantém uma competitiva equipe de basquete) e da Associação Atlética das Palmeiras (nada a ver com o Palmeiras atual), na realidade, é 26/01/1930 - mas, para homenagear a cidade-sede do novo e dos antigos clubes, colocou-se 25/01. 
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Como podem ver, aí mesmo já reside um sinal claro de que o São Paulo não foi fundado em um dia 25/01. Quem cultua essa data acaba ajudando, sabendo ou não, na difusão errada da cultura e de um dos principais símbolos do clube - a própria data de fundação. Mas voltemos à história.
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Entre os anos de 1934 e 1935 o antigo São Paulo (chamado de São Paulo da Floresta por herdar da AA Palmeiras o Estádio da Floresta, localizado no atual bairro do Bom Retiro) se fundiu ao Clube de Regatas Tietê, desativando seu departamento de futebol. Foram os sócios descontentes com essa fusão que fundaram o atual São Paulo Futebol Clube, em 16/12/1935 - essa sim a data de fundação oficial do clube, Vale dizer que o São Paulo-Tietê faliu pouco antes de 16/12/1935 e logo foram reincorporados, tornando o clube mais forte. 
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Os que dizem que dia 25/01 é o aniversário do São Paulo torcem para um clube falido e que durou cinco anos. Não é o meu caso. Mas vale entender porquê tantos torcedores gostam de dizer que o aniversário da cidade se confunde com o aniversário do time. 
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O São Paulo da Floresta foi campeão paulista de 1931 - sim, um ano depois de seu surgimento. Esse título foi reincorporado ao atual SPFC, que atualmente soma 21 títulos estaduais. Pode parecer pouco, mas até bem pouco tempo atrás o Paulistão valia mais até que a Libertadores, por exemplo. E é justamente esse troféu de 1931 que mantém o Tricolor na frente do Santos na contagem geral de títulos do torneio - algo que, aliás, eu não faço; para mim, o SPFC e o Peixe possuem 20 torneios e são os terceiros maiores campeões paulistas. 
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Mais recentemente, o motivo para comemorarem tanto o 25/01 como aniversário do São Paulo se dá por conta do sucesso de um dos maiores rivais do clube. o Corinthians foi campeão mundial de 2012 justamente em um dia 16/12, dividindo a importância da data entre os dois clubes. Na cabeça dos torcedores, é muito melhor fazer festa junto com a cidade do que junto do rival. Mesquinho, eu sei; mas é assim que pensam muito. Por sinal, já disse que o clube merece uma torcida muito melhor que a que tem hoje?
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Dou meus parabéns à São Paulo, cidade que aprendi a respeitar e amar. Mas não dou parabéns ao São Paulo porque hoje não é o aniversário do clube. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Mais que justiça ou direitos humanos: o exorcismo dos símbolos nacionais

O fato do dia foi a entrega do relatório final da Comissão da Verdade à presidente Dilma Rousseff. Acho que é chover no molhado dizer o quanto isso é importante para o Brasil e para destrincharmos os anos mais sombrios da nossa tão longa história, punindo quem mereça. Pena também que muitos não poderão sofrer em vida, morrendo sem nenhum julgamento. 
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Não me ative ao relatório como um todo, confesso. Foquei no que foi sugerido pelo relatório. Reconhecimento das responsabilidade de tudo o que aconteceu de sujo por parte do Exército; proibição de eventos comemorativos ao Golpe de 1964; abertura de documentos da ditadura; continuidade de buscas por desaparecidos, provas e de outras comissões para investigar os crimes daquela época. 
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É uma justiça histórica. Não há o que argumentar contra isso pra quem tem o mínimo de bom senso - o que obviamente não é o caso do Exército e de alguns nojentos que pedem intervenção militar no país. Aliás, fica o alerta: com o Exército rechaçando o relatório e pseudocidadãos pedindo intervenção militar, precisamos tomar cuidado. 
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Pensando sobre tudo isso, pensei além. Lembrei de alguns textos que li sobre o renascimento do patriotismo argentino após a ditadura no país. Tudo passou por um simples processo: julgar os culpados - basta lembrar que um dos maiores fascínoras sudacas morreu na cadeia - o general Jorge Rafael Videla. 
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Esse processo, já quase encerrado em outras países, começou apenas hoje no Brasil. Meu medo é que não seja divulgado como mereça. Entre tantos outros motivos, para retomarmos o nosso orgulho de ser brasileiro. 
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Todo país tem algo errado, mas o sentimento de impunidade e sujeira que existe em todo brasileiro é indiscutível e relevante demais para ser deixado de lado. A Comissão da Verdade mexe, talvez, na nossa ferida mais exposta. O julgamento do Mensalão também foi importante nesse aspecto, aliás. Existem vários outros escândalos, muitos que serão descobertos e alguns até já esquecidos. Precisamos investigar todos, independentemente de qualquer coisa. 
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Me incomoda ver que as manifestações conservadoras no país (onde, aliás, aparecem as asquerosas pessoas pedindo intervenção militar) usem as cores da bandeira do Brasil como se confrontasse o vermelho ou algo do gênero. A bandeira brasileira não é de uma ideologia ou de uma visão de mundo: é de todo mundo. Deveria ser usada também nas manifestações de Dilma, não só nas de Aécio. 
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(E aqui não cabe uma divagação sobre o vermelho do PT, partido que cada vez mais joga as regras do livre mercado. Um post sobre isso seria ainda mais longo e não é essa a minha intenção)
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Que o verde-e-amarelo deixe de ser brega. Que o hino seja respeitado e tenha seu valor. Que eu não esteja sendo inocente, e que continuemos a caçar nossos fantasmas. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Muito mais que a Proclamação da República

Como já é de praxe, esquecemos de qualquer efeméride que acontece em uma data qualquer quando temos um feriado no dia. Pra muita gente, em todo o planeta, o dia 15 de novembro foi unicamente o dia da Proclamação da República do Brasil. É óbvio que ver a República nascendo é algo importante, mas não podemos nos esquecer de alguns outros fatos interessantes que aconteceram em toda a História no dia 15/11.
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A data, por exemplo, marca o nascimento de dois países bem curiosos, com uma existência conturbada e um status praticamente sui generis no mundo.
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O primeiro deles é a República Turca de Chipre do Norte, que ocupa a parte norte da ilha cipriota. O Chipre como conhecemos hoje enquanto Estado é formado e é representado pelo que existe no sul da ilha, com influência da população formada pelos descendentes da Grécia. Como mais um capítulo da eterna rivalidade de gregos e turcos (incluindo uma invasão helênica para anexar a nação em 1974), a metade norte do local, formada por imigrantes advindos da Turquia, reivindicou sua independência - adotando o nome óbvio de Chipre do Norte. O processo, porém, só foi reconhecido pelo governo de Ankara - e até hoje é assim. Também é curioso ver que, tal qual Berlin na Segunda Guerra Mundial, a capital do país, Nicósia (ou Lefkosia para quem é de lá) é dividida entre as duas porções. 
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Um acontecimento bem mais conhecido e ventilado internacionalmente que também faz aniversário hoje é a proclamação do Estado da Palestina, por parte do líder islâmico Yasser Arafat em 1988. A Palestina (ou Filastin para o povo árabe) nunca teve um reconhecimento pleno de suas funções, e até o status político de seus dois territórios (a Cisjordânia e a Faixa de Gaza) é diferente um do outro. O fato é, talvez, a maior glória da Organização para a Libertação da Palestina, que luta pela independência de um povo que já passou por muitas agruras ao longo dos tempos.
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Também temos algumas figuras históricas que fazem aniversário hoje. Osvaldo Aranha, que foi advogado, diplomata e governador do Rio Grande do Sul é um deles. O tamanho de sua influência pode ser medido por seu cartel de amizades e figuras de fácil acesso para ele, como Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt. Também hoje nasceu o empresário Samuel Klein, empresário dono das Casas Bahia e que, na verdade, nasceu na Polônia (ou Polska), como mostra seu sobrenome. 
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Figuras históricas também tiveram sua morte decretada nesse dia. O matemático, astrônomo, astrólogo e filósofo Johannes Kepler (ele mesmo, autor das Leis de Kepler que aterrorizam os alunos do colégio) é um deles. Nascido na Alemanha (ou Germany, ou Deutschland), Kepler estudou as leis que regem a mecânica celeste. Também notável é o acadêmico, sociólogo, antrópologo e filósofo Émile Durkheim, considerado o pai da Sociologia moderna. 
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Muitos clubes de futebol também foram fundados nessa data. O mais popular time brasileiro, o Flamengo, nasceu em um 15/11. Também surgiram na data uma legião de equipes tem como nome a própria data: XV de Novembro - assim mesmo, em algarismos romanos. Notadamente do interior de São Paulo, representados e instalados nas cidades de Piracicaba, Jaú e Caraguatatuba - este último licenciado de competições oficiais. Em solo gaúcho temos também o 15 de Campo Bom - assim mesmo, esse com o 15 em algarismos indo-arábicos.
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E você, ainda acha que essa é apenas a data da Proclamação da República ?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Como a Veja viu a Crise dos Mísseis

Em 1962, uma das potências mundiais na época, a União Soviética, colocou um pesado armamento em Cuba a fim de provocar a outra potência mundial na época, os Estados Unidos - esse até hoje país com a economia mais pujante do planeta. 
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O fato, conhecido como Crise dos Mísseis, entrou para a história como o momento no qual sentimos de perto uma Terceira Guerra Mundial acontecer, essa totalmente nuclear e com os sobreviventes sendo poucos e infelizes. Também foi um dos poucos instantes no qual os países protagonistas da chamada Guerra Fria estiveram à beira de uma guerra de fato - que nunca aconteceu diretamente. 
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Esse é o prólogo histórico. Aprendi que, em uma história com essas dimensões, não existe mocinho e vilão: todos tem sua faceta negativa. Não para a Veja, que trata os personagens yankees como se estivessem num pedestal, e os soviéticos como se fossem os comedores de criancinhas que pintavam anteriormente. 
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Na reportagem, que pode ser vista aqui, é evidente que a publicação colocou apenas o que a interessava. Mas, quando uma revista se propõe a fazer Jornalismo, creio que uma visão mais ampla dos fatos deve ser dada. Além disso, os advjetivos (que, no bom Jornalismo, são erros - mas isso não parece ser algo que a Veja se lembra ou faça) dados pela revista mostram o quanto os norte-americanos são demais e os antigos russos (e, de quebra, os cubanos) não valem nada. Não sou um profundo conhecedor do episódio, mas, sinceramente, duvido que o governo americano seja tão bonzinho - evidências histórias me ajudam nessa hipótese. Também relembro que o presidente dos EUA na época era John Kennedy, uma daquelas pessoas das quais não se pode falar mal para não ser tratado como herege - algo bem diferente do tratamento dado ao premiê soviético na época, Nikita Khrushchov, ou a figuras comunistas e socialistas como Fidel Castro e Che Guevara.
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Jornalismo ?

sábado, 8 de setembro de 2012

Santos 1x2 São Paulo, Paulistão 2003

Muitas vezes eu tenho algo planejado e acabo não fazendo o que planejei por um motivo bem babaca: começar a navegar no Youtube e, muitas vezes, recordar da minha infância. E boa parte das minhas memórias de infância estão ligadas ao futebol, sobretudo ao meu São Paulo. Hoje não foi diferente.
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Vendo alguns vídeos anteriores, vi os gols da partida que entitula esse post. Muitos talvez nem lembrem do jogo, já que ele ocorreu na primeira fase de um dos Paulistões mais estranhos que eu me lembro. Mas, ah, eram dois timaços. O Santos tinha boa parte dos garotos que deram o Brasileirão de 2002 pro Peixe e o São Paulo era a equipe que brilhava - quando a partida não era decisiva nem era contra o Corinthians. 
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Voltando ao Paulistão: ele foi transmitido pela Globo e pelo... SBT. Num dos últimos sopros de grandeza da emissora de Silvio Santos, o canal 4 paulista conseguiu os direitos da transmissão do certame, o que não foi digerido bem para a TV carioca - o jogo de estreia do campeonato, entre Santos e Santo André, teve um intervalo de 40 minutos graças a uma imensa pendenga no intervalo, inclusive com a Globo querendo cortar o sinal do SBT. Também acrescento que as transmissões do SBT foram excelentes, com narradores do calibre de Paulo Andrade e Dirceu Marchiori. 
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O campeonato em si era bizarro. Eram 3 grupos com 7 equipes, com o improvável número de 21 times. Em toda rodada havia um jogo duma equipe grande às 11h do domingo (!) para deixar as emissoras satisfeitas - lembro dum Internacional de Limeira e São Paulo nesse horário que doía apenas de ver o Sol, imagine jogar.
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O grupo 1, que tinha o Palmeiras, terminou com a liderança da União Barbarense. O grupo 2, de São Paulo e Santos, teve como ponteira a Portuguesa Santista - hoje na quarta divisão estadual. Já o grupo 3, do Corinthians, foi vencido pelo São Caetano. 
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Lembro que o jogo do post me marcou demais, já que eu sempre fui apaixonado pelo São Paulo e a equipe não vinha correspondendo, sobretudo em grandes jogos. Naquele dia tudo foi diferente, porém. Robinho jogou muito, o Santos era uma verdadeira seleção, mas o São Paulo tirou forças sabe-se lá da onde (já que tomou um pau boa parte da partida) para vencer - e eliminar o Santos ainda na primeira fase.
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Os reflexos desse jogo, possivelmente, são vistos até hoje. Minha aficção quase que doentia por Luis Fabiano vem muito do golaço que ele fez na partida, e o considero mais ídolo que Rogério Ceni pois o goleiro falhou feio no gol santista - é idiota sim, mas explique isso prum garoto de 11 anos... e o que um torcedor sente uma única vez jamais é esquecido. 
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Você pode ver o compacto do jogo aqui - e eu espero que você tenha alguma lembrança daquele campeonato que foi muito mal-organizado, mas foi emocionante até dizer chega. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sobre o hino da Independência

Muitas pessoas dizem que a canção é mais bonita que o próprio hino nacional - não sei se concordo ou não, me limito a dizer que acho as duas músicas lindíssimas. Mas me pergunto hoje se todos sabem que, durante 9 anos, o que hoje é o hino da independência foi o próprio hino nacional. 
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Como a música é de D. Pedro I (com composição de Evaristo da Veiga), ele logo outorgou sua canção como hino do país cuja proclamação de independência foi feita por ele. Quando ele abdicou ao trono em favor de seu filho sua popularidade estava em baixa e a música era muito ligada ao agora ex-imperador. A canção, então, desceu alguns patamares no panteão de símbolos nacionais e o atual hino nacional, composto ainda em 1822 mas que "não pegou" quando de sua autoria, foi reconhecido como principal música brasileira. 
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Outra história interessante: o hino da independência foi feito por D. Pedro ainda no dia 07/09, na cidade de Santos, por volta das 16h. 
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Vale dizer também que o Brasil é o único país do planeta que tem um hino especialmente feito para homenagear sua independência. Alguns países colonizados fizeram músicas para celebrar sua emancipação de suas respectivas metrópoles, mas eles foram logo alçados a condição de hino nacional. 
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Seja como for, a canção é espetacular. A letra está aqui em baixo e você pode conferi-la aqui:
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"Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil."

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Histórias olímpicas

Não quero discutir aqui a pergunta que os fãs de esportes (esportes, e não unicamente futebol) discutem ao redor do mundo inteiro: se a Copa do Mundo é mais legal de se acompanhar que os Jogos Olimpícos ou vice-versa. Para mim, a questão é resolvida facilmente: o futebol há muito deixou de ser apenas um esporte, e, por ter dado certo, é o maior evento do planeta. São menos jogos e uma visibilidade imensa, com superlativos que impressionam demais ao falarmos de rendimentos econômicos e de audiência. Mas, se quisermos histórias mais humanas e que não estão no jornal todos os dias, as Olimpíadas são um prato cheio.
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Em um post inspirado, o twitteiro e blogueiro Ricardo Henriques (conhecido na internet como Calhau) fez um ótimo saldo final do evento de Londres - a postagem pode ser acessada diretamente aqui. O ponto alto do texto, porém, foi a lembrança de alguns personagens com histórias esportivas marcantes, provando que os esportes não tão vistos nesse país tropical rendem histórias tocantes.
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Começamos com a judoca saudita Wojdan Shaherkhani. Facilmente derrotada na estreia, a adolescente de 16 anos cravou sua história nas Olimpíadas por tornar-se a primeira mulher a representar a Arábia Saudita em Jogos Olimpícos, muito em função de um trabalho para deixar os Jogos mais abrangentes e representativos socialmente do Comitê Olímpico Internacional - aliás, podemos fazer mutias críticas ao COI, mas essa atitude é louvável, ao dialogar com regimes extremamente fechados em prol do esporte.
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Já Mo Farrah é um somali (apenas lembrando que, como Estado, a Somália vive uma situação tão complexa que nem existe mais) que migrou para a Inglaterra e tornou-se um megacampeão de provas de fundo. Em Londres, ele foi medalhista de ouro nos 5000m e 10000m. Para não esquecer de suas origens, ele tornou-se um grande ativista contra a desnutrição infantil africana, sobretudo em seu país de origem.
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O queniano Julius Yego aprendeu a lançar dardos observando movimentos de atletas de alto nível no Youtube. Com acurácia, precisão e muito estudo, ele chegou às Olimpíadas. Também não podemos esquecer que um treinador pagou com seu próprio dinheiro quando o único dardo com o qual o africano treinava quebrou-se.
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A velejadora polonesa Zofia Noceti-Klepacka tem, talvez, a história mais humana e solidária de todos os Jogos. Ela apenas foi para a competição para ganhar uma medalha e leiloá-la em prol de sua vizinha, que tem uma doença extremamente rara e grave. A europeia ficou com a prata, mas não se sabe se ela conseguirá bancar o tratamento de Zuzia - nome da referida vizinha. Seja como for, é um grande exemplo.
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Até mesmo quem já tem uma carreira consolidade no esporte provoca histórias interessantes. O triatleta canadense Simon Whitfield, que tem um ouro e uma prata olímpicas em seu currículo, caiu e levou consigo o estreante costarriquenho Leonardo Corrales. Ao invés de mostrar irritação ao perder a chance de sua vida de brilhar, o centro-americano escreveu em redes sociais que ele é um de seus maiores exemplos e que espera encontrá-lo nas Olimpíadas do Rio. Espírito olímpico em estado puro.
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Deficiências físicas podem atrapalhar muitos atletas, mas algumas pessoas são especiais não só por lhe faltar algum pedaço de corpo humano, mas também por seu alto rendimento quando comparados aos que tem um corpo intacto. O sul-africano Oscar Pistorius é a maior prova disso. Especialista em provas de 400m, ele competiu pela primeira vez em competições olímpicas e chamou a atenção do granadino Kirani James, que não comemorou a vitória em sua bateria para ter uma lembrança do Blade Runner. A polonesa Natalia Partyka nasceu sem parte do braço e, mesmo assim, joga tênis de mesa como poucas. 
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A imagem mais marcante dessas Olimpíadas, porém, é a de Shin Lam. A sul-coreana foi prejudicada pelo equipamento de esgrima, que não marcou um ponto seu e marcou um de sua adversária. Ela entrou com um recurso para a mais alta instância olímpica presente e permaneceu no tablado por cerca de uma hora - sair do local de competição implica em desistência automática. O recurso foi negado e a oriental chorou copiosamente, em imagem tocante que foi lembrada até mesmo na cerimônia de encerramento dos Jogos.
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Como esquecer, também, das nadadores adolescentes que conseguiram resultados tão incríveis ? A chinesa Ye Shiwen venceu duas provas e, em uma delas, foi mais rápida até que os homens em boa parte da competição. A lituana Ruta Meilutyte, de apenas 15 anos, venceu os 100m peito e também entrou pro seleto hall de medalhistas de ouro nos Jogos Olímpicos. E você, sabe-se lá com quantos anos, o que fez de importante hoje ? E você aí, sedentário...
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Não precisa ser um Phelps ou um Bolt para emocionar. Aliás, a emoção muitas vezes vem desse exército de quase-anônimos que não tem seu nome veiculado, mas por diversas vezes são verdadeiros exemplos de superação.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Com a sombra da política

O mundo inteiro, fã de futebol ou não, tomou conhecimento do que houve no jogo entre Al-Masry e Al-Ahly, pelo campeonato egípcio de futebol. A vitória do Al-Masry, por 3x1, gerou uma alucinada e ignorante reação dos torcedores das águias verdes, que invadiram o campo e mataram 74 pessoas, segundo estimativas, além de deixar no mínimo duzentas pessoas feridas.
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É claro que o futebol não é o principal motivo de toda essa carnificina. Pra quem não sabe (e muita gente que não sabe quis dar pitaco no assunto), a maior rivalidade do Egito tá muito longe de ser entre Al-Masry e Al-Ahly. As duas torcidas que mais se odeiam (e que protagonizam uma das maiores rivalidades do planeta) é a existente entre os fãs de Al-Ahly e Zamalek.
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Isso não foi noticiado, mas o Zamalek jogava no instante no qual o estádio de Port Said virou campo de guerra. O jogo foi paralizado e os torcedores do clube bradavam "não queremos morrer como eles". A rivalidade não deixou de existir duma hora pra outra, eles apenas se solidarizam com quem foi tão massacrado por motivos tão distantes do esporte.
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Sobre o Al-Masry, falo mais: como um time pode fazer tanto barulho se nunca venceu a liga nacional ? O único título da equipe foi o da Copa do Egito de 1998. Na liga, a melhor campanha das águias verdes foram participações nas quais o clube terminou na terceira colocação. Esqueçam, isso não foi motivado pelo fuebol.
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O presidente do Al-Masry, Kamel Abu Ali, disse que qualquer acusação ao que aconteceu é apenas um complô para derrubar o Estado. Disse ainda que o que deveriam fazer é deixar os policiais fazer seu trabalho. Os policiais, como se vê nesse vídeo do pós-jogo, não fizeram trabalho algum. Apenas corriam, sem fazer nada de fato. Isso fica ainda mais claro se pensarmos que menos de cinquenta pessoas foram presas - ou seja, mais pessoas morreram do que foram detidas graças ao ocorrido.
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A história do Al-Masry também pode colaborar com tal caso. O clube foi fundado em 1920 na cidade de Port Said, que tinha grande influência de forças internacionais, por sua proximidade do Canal de Suez - canal que liga os mares Mediterrâneo e Vermelho, o que ajudou demais os países europeus. Al-Masry, em egípcio, significa "o egípcio". O futebol da cidade na década de 20, época da fundação do clube, era dominado por clubes de menor expressão, e todos de comunidades estrangeiras. O Al-Masry é, portanto, o ápice do nacionalismo egípcio na época da revolução egípcia contra o domínio britânico - o símbolo das águias, inclusive, remete ao formato dos pingentes de Tuthankamon.
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Hosni Mubarak, antigo ditador do Egito, foi alçado ao poder graças ao nacionalismo que é histórico do Al-Masry. A atual junta de governo militar foi favorecida pela pressão internacional, e o parlamento do país é dominado pela Irmandade Muçulmana - e isso dá a entender que os militares tentarão prorrogar ao máximo seu poder no Executivo. Pra clarear um pouco mais a ideia, a torcida do Al-Ahly deu total apoio às manifestações anti-Mubarak, não só incentivando como também marcando protestos. Eles, por exemplo, estavam na linha de frente do que ouve na praça Tahrir, símbolo da Primavera Egípcia.
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Na chamada "batalha dos camelos", nos qual partidários de Mubarak começaram a atacar a multidão na praça Tahrir, quem contra-atacou e quem venceu o episódios foram torcedores do Al-Ahly, passando por cima até da polícia. Polícia essa que, tudo leva a crer, ajudou demais o vandalismo em Port Said.
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Futebol e política por vezes se fundem, ora pra melhor, ora pra pior. No Egito isso novamente aconteceu, infelizmente da pior forma possível.