sexta-feira, 13 de março de 2015

Vinte e três - a mudança chegou

Como todo adolescente, esperava ansiosamente pelos meus dezoito anos. Achava que a minha vida mudaria do nada em uma passagem de noite. E, como a maioria das pessoas que chegam a essa idade, quebrei a cara ao ver que nada tinha mudado. A vida continuava a ser uma penitência - até porque é só na teoria que ninguém bebe e não entra em qualquer lugar sem um RG falso. 
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Sabia que, alguma hora, a mudança ia chegar. Aos poucos ou abruptamente a minha vida daria uma guinada. Comecei a encaixar a minha vida ao meu gosto (e não ao gosto da minha mãe) aos poucos. Pagar algumas contas, ajudar em tarefas domésticas, ter liberdade para sair e gastar o meu dinheiro. Isso, realmente, foi conquistado nesse longo período dos dezoito até os vinte e dois.
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Ontem, no meu aniversário de vinte e três anos, eu parei pra pensar nessa história de mudanças novamente. E vi que a hora de mudar é justamente agora. 
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A começar pelo lado profissional: após oito meses parado para fazer o TCC na faculdade, voltei a trabalhar - pela primeira vez como senior, e não como estagiário. Oito horas (no mínimo) por dia, participando de várias ações e ideias e de corpo e alma em um local. Além disso, tenho dois freelancers para complementar a renda - e fazer contatos, é claro.
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Outra mudança: pela primeira vez na minha vida eu passarei um ano sem estudar academicamente. Com a faculdade encerrada, vou tirar um ou dois anos de folga para depois pensar na pós-graduação. Quero terminar o inglês (quem não tem inglês hoje em dia sofre) e começar uma ou duas línguas extras no período - tenho especial predileção pelo alemão, sabe-se lá porquê. 
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Ainda falta muita coisa, é claro. Morar sozinho, ter meu carro, conseguir ver mais a minha namorada em dias da semana... mas, se demorei alguns anos pra conseguir o que de tanto me orgulho hoje, posso ter mais tempo para bater essas metas antigas - e mais ousadas. Que venha tudo agora. O vinte e três foi só o começo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Lava-jato, tucano, petista e ignorante

Já falei algumas vezes sobre o Petrolão e a Operação Lava-Jato - aqui, aqui e aqui. Sempre criticando os envolvidos e tentando, de alguma forma, mostrar algum outro viés que muitos não captaram ou não sabiam. Eis que a vida, essa roda da fortuna, faz esse favor para mim.
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Eu, infelizmente, não tenho informações privilegiadas sobre ações da Polícia Federal - como a maioria da grande mídia parece ter, diga-se de passagem. Mas eis que a própria grande mídia, que parece ter um prazer descomunal em bater no atual governo, tem que engolir informações que não a agrada. 
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PS: o parágrafo acima não trata-se de um achismo ou de uma opinião. Você não precisa de muita pesquisa para confirmar o que é dito nele, e deixo para você fazer isso. Se quiser uma dica, clique.
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Por conta dessa própria grande mídia você não saiba que, agora, não temos apenas pessoas de empreiteiras ou da base aliada entre os que querem colocar imediatamente no banco dos réus, apenas com delações premiadas e informações de uma ou duas pessoas suspeitas e sem nenhuma grande investigação. 
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O TSE divulgou que Aécio também recebeu dinheiro das empreiteiras em sua campanha. Fico me perguntando se os que pedem o impeachment de Dilma sabem disso. As tais delações premiadas (que vazam sabe-se lá porquê, já que são ditas apenas por um suspeito e sem nenhuma investigação concreta realizada) também mostraram que Aécio Neves, Álvaro Dias e outros congressistas da oposição foram pressionados a não aprofundar nada na CPI da Petrobras. Ricardo Boechat foi além: segundo ele, depoimentos das delações dizem que o principal nome da Lava-Jato é o próprio Aécio Neves.
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Que temor é esse, tucanos? Vocês não eram a favor de uma investigação profunda e tudo mais? Aécio, será que o ex-presidente e seu avô Tancredo Neves nunca te disse que "quem não deve não teme"?
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Mais: uma denúncia envolvendo o nome de Agripino Maia, senador pelo DEM e coordenador da campanha de Aécio à presidência, diz que o político potiguar participava de um grande esquema no DETRAN local. Mas é claro que o fato de Agripino ser coordenador da campanha tucana ao Planalto não foi citado em nenhum momento. 
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Culpar só o PT é ignorância. Até porque o PDSB é igualzinho. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

A vida é bem mais que a vida alheia

Aconteceu comigo, no domingo logo depois do carnaval. Estava saindo da ESPN e indo a pé até a estação Sumaré quando ouço uma súbita e forte freada na Doutor Arnaldo. Olho para a direita no instante que um Fox bate em um EcoSport; e, com a força da batida (que nem foi tão forte assim), o segundo carro atinge um Prisma. 
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Parece que o centro do mundo tinha virado aquele farol na frente da Torre da Cultura. Parece que a importância da ONU ou da Casa Branca tinham sido sumariamente diminuídas diante daquele pequeno engavetamento. As cercas de dez pessoas que estavam próximas do local da batida logo se amontoaram, cruzando inclusive a avenida com o farol aberto. 
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Os comentários eram sempre parecidos e atropelados pelas próprias pessoas. "Nossa, a menina do Fox tá chorando", "Vish, o cara da EcoSport saiu puto", "Meu deus, que moça desatenta" foram alguns dos exemplos que ouvi enquanto passava na frente do grupelho, que parecia que não tinha mais nada para fazer na vida a não ser ver aquela situação na rua. 
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Passe pelo grupo em dois segundos. Vi a batida e não parei de andar para frente. Eram 13h15 e eu teria que narrar dois jogos de casa, o primeiro às 16h. Alguns me olharam espantados por eu não dar relevância para aquele evento tão importante para outros. 
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Voltei para casa me perguntando porque raios as pessoas gostam tanto de futricar a vida alheia. Além de ninguém ganhar absolutamente nada com isso, essa atitude só prejudica os demais - a motorista que começou a chorar deve ter ficado ainda mais ansiosa ao ver que tinha gente prestando atenção nela. Os transeuntes não estavam nem aí, tanto que nenhum deles se dispôs a ajudar em nada. Só ficaram lá especulando sobre o ocorrido e comentando tudo o que viam.
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Sei que, infelizmente, esse grupo apenas representa uma enormidade de gente que faz a mesmíssima coisa não só ao ver acidentes, mas para absolutamente tudo na vida - você deve conhecer fofoqueiros, espíritos de porco, futriqueiros e por aí vai. Eu lamento por eles, mas não escondo a raiva. 
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Narrei meus dois jogos, ganhei meu dinheiro. Foi bem melhor que ficar vendo três carros batidos. 

domingo, 1 de março de 2015

450 anos do Rio e 250 Cristos Redentores

Por mais que toda cidade tenha suas características e identidade, nenhum outro município brasileiro é tão icônico quanto o Rio de Janeiro. Seja pelo sotaque carioca, pela cultura, pela música ou por qualquer outra qualidade que o local justamente chamado de Cidade Maravilhosa, o mundo inteiro conhece e deseja visitar o Rio.
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Pontos turísticos não faltam. As praias, o Sambódromo, o Maracanã, o Pão de Açúcar e o Corcovado. Corcovado onde fica, aliás, uma das Sete Maravilhas do mundo moderno: o Cristo Redentor.
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Inaugurado em 1931 após nove anos de construção, o Cristo é conhecido por todos. Todos mesmo: em 2011, foi eleito o maior símbolo da América Latina. O que você pode não saber é que não existe apenas esse Cristo Redentor por aí. Mais: todos os mais de 250 Cristos de outros locais tem algo em comum - e não é a figura homenageada.
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Todos vieram da mesma família: os que tem sobrenome Papaiz, originalmente de Campinas. Com os moldes prontos, bastava à cidade que quisesse comprar um Cristo escolher o tamanho. O que popularizou ainda mais as esculturas é o baixo preço: as maiores estátuas custam apenas 12 mil reais - quantia que não precisa de autorização de nenhum Legislativo municipal para ser gasto. (É claro que o material é diferente do Cristo original, bem mais em conta)
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O Rio continua lindo, e jamais deixará de ser. Mas a Cidade é muito mais que Maravilhosa; é inspiração e influência pura.
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Abaixo, alguns dos Cristos Brasil afora. Pena que nenhum deles tenha a Baía de Guanabara para abraçar.
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Cornélio Procópio - PR

Indaiatuba - PR

Taiúva - SP

Lagoinha - CE

Taubaté - SP

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Má fé é tentar macular o título da Beija-Flor

Na última quarta-feira de cinzas a Beija-Flor conquistou seu décimo terceiro título no carnaval carioca. No hard news (jornalismo que cobre apenas os fatos que acabam de acontecer) convencional essa seria a manchete, sem grandes detalhes. Mas achei impressionante ver como a própria essência do hard news foi quebrada na cobertura da apuração do carnaval.
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Absolutamente todos os veículos de comunicação (sejam eles da TV, do rádio, impressos ou da internet) deram como destaque o enredo sobre um país ditatorial, que foi financiado pela ditadura local. Ninguém falou que nos últimos treze anos a Beija-Flor ganhou mais da metade dos títulos, por exemplo. Se um é notícia, o outro também é. Mas tudo bem, deixemos essa passar. 
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O que vem por aqui é uma análise mais carnavalesca que o que costumamos ver. Hoje em dia, por conta da cobertura patética da Rede Globo de Televisão, criou-se uma geração que não busca informação nenhuma e fica presa nos seus achismos. Apesar disso, quero deixar bem claro que fui contra desde o começo do enredo sobre Guiné Equatorial (não só pela ditadura, mas também por não achar que daria um enredo interessante - me enganei nesse segundo, assumo) e também que repudio as palavras de Neguinho da Beija-Flor, que agradeceu à contravenção no carnaval. Até lendas tem seus dias infelizes.
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Mas... vi muita gente contestar o título da escola de Nilópolis. Mais do que isso: vi muitos desrespeitarem a escola e a chamaram de ladra, falarem que ela não merecia o título, que ela só ganha roubado e afins. Puro choro de mau perdedor. 
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O carnaval de 2015 não teve um favorito destacado. Todas as escolas tiveram ao menos algum erro, o que colocou muitas em condição de igualdade. A minha favorita, por exemplo, foi a União da Ilha - que, aliás, foi sumariamente assaltada na apuração. Mas creio que os nomes que mais ouvi para ser campeã foram os de Portela, Salgueiro, Unidos da Tijuca e... Beija-Flor. Como um título pode ser contestado se a escola estava no bolo principal desde sempre? Falar com o resultado na mão é fácil.
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Mas, novamente, tudo bem. Se querem falar de injustiças, vamos lá:
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Começando pela apuração desse ano: todos diziam que o Salgueiro já começava em desvantagem por conta de seu samba-enredo, que estava abaixo da média. Eis que o samba salgueirense não perde nenhum décimo enquanto o da Beija-Flor, aclamado por todos, não ganha a nota máxima. A vermelho-e-branca, que teve que acelerar o passo no final do desfile, perdeu apenas um décimo em Evolução. Mais: a bateria da Imperatriz Leopoldinense, que desfilou com um seríssimo problema nos surdos de terceira (a péssima afinação era perceptível até mesmo no áudio da TV), teve notas melhores que a da União da Ilha, que passou muito bem na estreia de Mestre Ciça. É óbvio que os jurados erram, mas eles também beneficiam outras escolas. 
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Também não vejo ninguém relembrando e a calamitosa apuração do ano passado. Não foi só o injustíssimo rebaixamento da Império da Tijuca que chocou. Após os desfiles, era perceptível que quem disputaria o título seriam Portela, Beija-Flor e Unidos da Tijuca - nessa ordem. O Pavão venceu, a Águia ficou em terceiro e a Beija-Flor... em sétimo. Como uma favorita fica em sétimo lugar? Com pressão, apenas. A escola nilopolitana foi muito contestada por falar de Boni - uma escola já tida como antipática falando de alguém da Globo resultou nisso. O desfile, que poderia tranquilamente ser campeão (apesar de seus erros), foi canetado até dizer chega. Nada me tira da cabeça que os jurados tiveram medo da dar notas altas para a escola. Venceu quem levou um carro que deu problema logo na comissão-de-frente - e que, por ter um enredo popularíssimo, não teve resistência nenhuma de quem julgava.
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Por fim: querem realmente falar de injustiça? Que tal, então, a Imperatriz dividir o título de 1989 com a Beija-Flor? E que tal a escola de Ramos dar o título de 2001 para a Deusa da Passarela, já que ninguém entende até hoje como a escola nilopolitana foi vice-campeã naquele ano?
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Chega de carnaval. Falemos agora de algo que os imbecis que se transformam em comentaristas de meia pataca de qualquer coisa sazonalmente são experts: analisar profundamente a história, a sociedade, a política e tudo que possa interessar e servir de crítica - tudo isso em profundas pesquisas no Google que duram cerca de oito minutos.
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Guiné não é só a ditadura. Como tudo que possa existir, o país tem muita história. Desde o descobrimento com Fernão do Pó (antes mesmo do descobrimento do Brasil) temos o petróleo, os diamantes, as influências culturais de França, Inglaterra e Espanha (tanto que é, em toda a África, o único país a falar castelhano), o catolicismo animista e as etnias Fang e Bubi. Você realmente acha que tudo isso no meio do continente que é o Espelho do Mundo não dá samba nem é interessante?
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Também repercutiu bastante o patrocínio do governo de um país majoritariamente miserável ao desfile. Eis que, bem, o governo de lá não tem nada a ver com isso. Quem patrocinou o carnaval da Beija-Flor foram empresas e mecenas de Guiné Equatorial e até mesmo empresários brasileiros.
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Por fim: falam da Beija-Flor como se apenas ela usasse meios escusos e nebulosos para financiar seus desfiles. TODAS (e gostaria de deixar o todas bem frisado) as escolas tem ligação recente e histórica com a contravenção. A começar pela própria Beija-Flor, que tem como presidente Farid Abrahão David, deputado estadual no RJ e irmão de Anísio Abrahão David, famoso bicheiro da Baixada Fluminense. Luizinho Drummond, presidente da Imperatriz Leopoldinense, esteve envolvido em diversos crimes. Castor de Andrade na Mocidade Independente, Natal na Portela, Maninho no Salgueiro... todas tem alguma ligação com algum contraventor. 
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O enredo, obviamente, também foi muito questionado. Mas, por favor, também não venham questionar isso. Em 2006, a Vila Isabel foi campeã com um desfile financiado pelo governo venezuelano - que passa longe de ser um exemplo de democracia. Em 1989, a Mangueira homenageou Chico Recarey, empresário espanhol radicado no Rio de Janeiro envolvido em problemas por falta de pagamento de impostos desde a década de 1980. As popularíssimas Vila Isabel e Mangueira podem, a Beija-Flor não. Certíssimo. 
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No final das contas, tudo o que falam visa apenas colocar pressão sobre os jurados para que, ano que vem, o título não volte para Nilópolis - pressão que já aconteceu antes. Falar que a escola teve um ótimo samba-enredo, muito luxo e que há muito tem o melhor chão do carnaval carioca deve ser proibido. Preferem falar que a Deusa da Passarela é apenas a escola da Globo porque ela aparecia no BBB (bem como a Mocidade Independente apareceu) - e como se a imensa maioria dos artistas globais não desfilassem na Grande Rio.
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Também tem gente que fala que a Beija-Flor ganha sempre com o mesmo desfile. Esse argumento é tão pueril que nem deveria ser respondido, mas lá vai: é um estilo, e é um estilo vencedor. O Salgueiro ficou mais de dez anos fazendo sambas no mesmo estilo, a Mangueira passou mais de oitenta anos sem fazer paradinhas na bateria, a Imperatriz ganhou carnavais que, se deixar, nem ela acreditava que seu estilo técnico traria para casa. E culpar a Beija-Flor por fazer um tipo específico de desfile? Me poupe. 
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Que o título da Beija-Flor em 2015 seja um marco para a moralização do carnaval. Sim, do carnaval. A Beija-Flor está inserida nesse meio, e não é só ela que deve mudar. Engulam o choro - e tomem as críticas para suas próprias escolas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Foi

Eu já tinha visto o Vai-Vai no Anhembi uma vez. Foi em 2012, logo depois de um título. Um samba que não me agradava (como muitos na minha própria escola do coração), um enredo promissor que foi mal explorado, uma atravessada histórica de Wander Pires... mas a arquibancada lá ficou, firme e forte, apoiando a escola em sua Via Crucis - que, sabe-se lá como, ainda gerou um ótimo terceiro lugar para a Escola do Povo. 
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Voltei pra ver o Vai-Vai esse ano. Fui desconfiado, mesmo sabendo que a escola tinha um sambaço e um enredo bem feito e muito popular. Mas não queria perder a desconfiança. Após um terrível nono lugar em 2014, seria difícil conseguir uma posição com tanto destaque diante de Mocidade, Rosas, Águia de Ouro e Tucuruvi.
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A desconfiança, essa maldita, sumiu quando Maria Rita esquentou a escola com um excerto de "Maria, Maria", logo emendado pelo começo do samba-enredo - que, por sinal, era a parte onomatopéica do mesmo clássico da homenageada desse ano, Elis Regina. 
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O nirvana durou alguns poucos minutos. Logo que o imenso abre-alas entrou na avenida era nítido ver o problema no primeiro carro acoplado. A desconfiança voltou. Eu cantava e me emocionava, claro, mas eu superdimensionei aquele fato. Tudo no Vai-Vai é superdimensionado, os fatos bons e os ruins. E eu já contava com a correria habitual da escola pra fechar dentro do tempo - algo que não aconteceu pela primeira vez em muitos anos.
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Superdimensionada e real era a torcida da escola. Ninguém mexeu mais com o Anhembi que a Saracura - nem a Gaviões, que entrou empolgando e saiu com o prazo de validade já vencido. Todos cantaram, desfilando ou assistindo. E todos faziam a coreografia que a escola fazia. Somos tradição. E o samba continua. 
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No ranking que sempre faço, a Vai-Vai era a terceira. Dependia de todo mundo canetar a Tucuruvi e os jurados não entenderem o complexo enredo da Rosas de Ouro. Foi mais ou menos por aí. No final das contas, foram pra Evolução a minha terceira e a minha quarta colocadas. O meu Vai-Vai e a Mocidade da bateria que mais pareceu uma metralhadora e não perdeu décimo nenhum de jurado nenhum.
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O castigo veio à cavalo pra Morada do Samba. Com uma nota de antecedência vi minha escola ganhar o 15º título de sua história e ratificar sua condição de ser a maior vencedora do carnaval paulistano. Tudo isso quietinho enquanto trabalhava. 
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A desconfiança me fez comemorar menos, mas não deixou tudo menos emocionante. A passarela, que virou um arrastão, consagrou quem a levantou. Nem precisou não ser Vai-Vai pra chorar: quem era chorou também. O mais importante é que a nossa escola levou a taça.